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| Colunas do mês de Novembro / 2006 |
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Arame, Durepóxi e Silver Tape
10/11/2006 - Celso Travassos
É assim.
Você percebe, aos poucos e por pequenos detalhes, que é proprietário de um conceito e não de um carro.
Pára no posto de gasolina e o frentista:
- Bacana, hem doutor? É 4x4? Sobe até em parede. Lá na roça eu andava muito em um de meu tio.
Vai no eletricista e entra uma velhinha, tia do dono da oficina:
- Olha! Andei muito num destes quando era nova, na fazenda de meu pai! Que saudade!
Você estaciona na garagem do prédio de sua mãe e quando olha da janela seu carro virou Play-ground, com as babás conversando tranquilamente e em paz, enquanto os pimpolhos ligam e desligam todos os botões, dão pulos nos bancos e agarram o volante, sacudindo para frente e para trás!...
Leva o bruto para trocar a borracha do vidro e acaba montando o quadro do pára-brisas porque os funcionários não sabem como fazer e começam a montar errado...
Leva para alinhar e acompanha o serviço todo, explicando que a rosca é contrária, não adianta dar porrada!...
Sua garagem tem sempre uma manchinha de óleo e sempre você escuta relatos de como pode fazer sua reduzida parar de vazar.
Parado no trânsito, tem sempre uma criança no carro da frente que te aponta e fala alguma coisa com o pai, que te dá uma conferida pelo retrovisor.
Sua filha adolescente se recusa a ir para escola nele, pois seu cabelo fica “com cheiro de jipe”!
Sua esposa acha que você é um maníaco – provavelmente ela tenha razão.
De vez em quando tem a tentação de mudar tudo e fazer dele um Frankstein, com outro motor, outra caixa outro tudo, mas depois da primeira cerveja, se acalma e percebe que é bom andar devagar e olhando as coisas, é como se ele fosse um freio ao stress diário, um canal que muda sua frequência de AM para FM e te prova que podemos viver com menos pressa... Afinal você não consegue ultrapassar o limite dos radares!... Os outros motoristas te ultrapassam velozmente, com olhares raivosos, pelo menos essa é a impressão... Você segue tranqüilo observando a paisagem, seja da cidade ou do campo.
Pressa de chegar? Se tiver pressa, não chega. E se tiver compre um desses modernos, com preço de apartamento de zona sul, que não se sabe se é para ir para festas a noite, demonstrar status ou andar no mato.
Ele foi projetado para um país e época mais calmos, com menos asfalto, mais bucólico.
No sábado, quando você abaixa a capota e leva a meninada para um passeio no mato, surgem várias lembranças – agora, as suas.
É um conceito. Não um carro.
E fique tranquilo, se ele te deixar na mão em algum lugar inóspito, tendo uma Silver Tape, um Durepóxi e um arame, provavelmente você
voltará para casa e o entregará aquele antigo mecânico de confiança, na segunda-feira de manhã.
É isso. Você tem um Jipe.
Bem-vindo à turma!
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“SIR” 4.5 Litre
09/11/2006 - Renato Bellote Gomes
Inglaterra. Uma região de conquistadores e muita história. Invasão dos celtas no longínquo século VII (a.C.), conquista do território pelos – homens do norte – normandos e vários outros fatores tornaram a cultura do país rica e diversificada.
Do ponto de vista automotivo, os ingleses tiveram um desenvolvimento um pouco tardio, se comparados a outros países europeus. A primeira marca britânica foi a Lanchester, fundada no ano de 1899. O proprietário – Frederick – também inventou o freio a disco. Mais tarde viriam as demais fábricas que fariam história.
Pois bem, depois de exercitar um pouco a memória e tomar o chá das cinco, vamos falar de um outro inglês muito talentoso. Walter Owen Bentley veio de uma grande família, com vários irmãos e irmãs. Capitão da Royal Naval Air Service durante a 1ª Guerra Mundial, desenvolveu um sistema de rotores para os lendários motores Clerget – refrigerados a ar – utilizados nos biplanos de combate ingleses, chamados de BR1 e BR2. Por esse motivo, foi condecorado pela rainha com o MBE.
Além da honraria, ganhou um incentivo de 8 mil libras pela invenção. Desse modo, associou-se a seu irmão e, no ano de 1919, fundou a Bentley Motors. A história, nesse ponto, ganharia novos fatos e personagens.
A primeira criação de Bentley foi um carro revolucionário. Esse modelo – chamado de 3 Litre – foi o primeiro a utilizar um motor de quatro válvulas por cilindro. Pesando quase duas toneladas e com um motor de quatro cilindros (2.996 cm³), faturou as 24 horas de Le Mans no ano de 1924, segundo ano de realização da prova.
A pequena fábrica inglesa já estava dando trabalho para as tradicionais concorrentes. Ettore Bugatti chegou até mesmo a dizer que o 3 Litre era “o caminhão mais rápido do mundo”, em alusão ao seu elevado peso.
Mas W.O. – como era conhecido – não era um dos melhores administradores e vendeu a maior parte das ações da empresa, cuidando, a partir daí, do design e desenvolvimento de novos modelos.
A fábrica passou a ser controlada pelos Bentley Boys, um grupo de jovens membros da aristocracia que conduziria o esportivo às vitórias na pista francesa, nas edições de 1927, 1928, 1929 e 1930. Dentre eles, se destaca Joel Barnato – filho de um magnata do diamante – que pilotou o carro nos três últimos anos.
Voltando à nossa história, foi desenvolvido um modelo mais rápido, o 4.5 Litre Supercharged, com 175 cavalos de potência. A maior característica desse bólido era a presença de um vistoso blower à frente da grade dianteira, entre os faróis. Para fechar a série de carros velozes, o Speed Six – com seis cilindros e 6.597 cm³ – foi uma das maiores criações, sendo o responsável pelas duas últimas vitórias no circuito de La Sarthe.
Após a crise na bolsa de valores de Nova York, os sócios da empresa sofreram um abalo econômico, o que acabou por prejudicar o desenvolvimento de novos carros e ocasionou a venda da fábrica para a Rolls-Royce em 1931.
Walter Bentley se casou três vezes e não teve filhos, falecendo no início da década de 70. Em 2003, um modelo da marca – o Speed 8 – venceu as 24 horas de Le Mans, após 73 anos de jejum. Certamente, o velho W.O. estava lá, na linha de chegada, sorrindo ao ver seu “caminhão” superando todos os adversários.
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