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Muito Por Fazer
24/09/2007 - Fernando Calmon
No último dia 23, o Código de Trânsito Brasileiro (CTB) — lei 9.503/97 — completou 10 anos, tendo entrado em vigor seis meses mais tarde. É um verdadeiro tratado de 341 artigos, além de um anexo de conceitos e definições. Quase 250 resoluções do Contran, com força de lei, se adicionaram ao CTB. Em nível internacional é um dos mais completos e rigorosos, inclusive por introduzir no País o conceito de pontuação que leva à suspensão temporária da carteira de habilitação.

Embora alguns críticos considerem que vários artigos do código não são cumpridos ou estão mal regulamentados, já existe uma comissão na Câmara dos Deputados estudando um projeto de revisão, sem prazo para conclusão. Entre as normas que viraram letra morta estão multas para infrações de pedestres e ciclistas, bem como campainha, espelho e sinalização noturna. Somente 14% dos municípios assumiram as responsabilidades que lhe foram atribuídas pelo CTB. E o mais grave: as multas vão para o caixa único dos governos, sem a destinação obrigatória em ações de engenharia de tráfego e de campo, sinalização, fiscalização e educação de trânsito.

Apesar das falhas de implantação, as estatísticas indicam ter havido redução de mortes em relação à frota, que cresceu muito. Ainda assim, um dos grandes problemas na luta pela segurança é a carência de números confiáveis. O Contran continua trabalhando com referências irreais. A frota verdadeira é menor e mais pessoas morrem todos os anos considerando os óbitos até 30 dias depois dos acidentes. Assim, o quadro trágico melhorou um pouco internamente, mas piorou frente a países desenvolvidos.

Sem dúvida, o CTB precisa de correções. A começar pelo arcabouço do Sistema Nacional de Trânsito mal resolvido pela lei. Falta estrutura — física e de pessoal — para o Contran, de fato, funcionar a contento. Várias das resoluções tiveram que ser revistas ou revogadas por deficiência de informações técnicas e até erros primários. Atualmente comandado pelo Ministério das Cidades, o colegiado está sujeito a grandes pressões. A direção atual vem conseguindo implantar uma nova dinâmica, com mais acertos do que erros.

Outro problema está no desrespeito aos cidadãos. Inadmissível um motorista vender um carro e passar, na prática, a responsabilidade de multas — às vezes até a pontuação — ainda não processadas para o novo proprietário. O código é leniente com a desorganização das autoridades do setor. Tornou-se mais importante garantir arrecadação do que punir o verdadeiro culpado.

Difícil será achar solução para o trânsito de motocicletas entre as fileiras de carros em movimento, uma das maiores causas de mortes nas cidades, depois dos atropelamentos. No CTB original esse corredor de segurança era preservado, mas recebeu veto presidencial. Um paliativo talvez fosse permitir a circulação das motos somente enquanto as fileiras dos demais veículos estivessem paradas, apesar da dificuldade de fiscalização. O respeito à faixa de pedestre necessita de maior rigor. O código poderia impor sanções maiores aos infratores e obrigar os municípios a fazer campanhas permanentes com monitores treinados.

Nessa matéria, portanto, ainda há muito por fazer.

RODA VIVA

DEPOIS de idas e vindas, a Ford partirá mesmo para a picape compacta derivada da plataforma do Fiesta, aproveitando o porte robusto do EcoSport. Decisão tomada, talvez, porque este utilitário compacto não tem conseguido barrar o avanço da picape Strada, apesar de só serem concorrentes diretos na estatística da Anfavea. E também porque vêm a pickup 206 e o Logan crossover.

COMEÇOU semana passada a produção do utilitário esporte CR-V no México. Primeiras unidades chegarão ao Brasil no começo de 2008. Vantagem: entra no País sem imposto de importação. Seu preço não deve cair muito. É possível que a Honda faça um encontro de contas, pois o Accord (antes mexicano) passa a vir dos EUA, pagando 35% a mais de imposto.

BOA briga entre Fiat e VW pela bandeira de segurança. Ambas estão ampliando a oferta de modelos com venda conjunta de freios ABS e airbag duplo frontal. Pacote opcional é 40% mais barato do que o preço individual de cada sistema. A Fiat saiu na frente e vai oferecer para toda sua linha, menos Mille.

AUXÍLIO de GPS para detectar lombadas ou pontos perigosos do caminho é a proposta do aparelho Co-Piloto, importado da Coréia pela Ubibras. Na avaliação, emitiu avisos de voz sobre todas as lombadas nos corredores principais e localização de radares fixos, mas não os estáticos (conhecidos como móveis). Sem possuir tela ou mapa custa R$ 700,00 — menos da metade do preço de um navegador GPS.

NOVA enganação na praça. Concessionárias e oficinas estão vendendo serviço de descarbonização do tanque de combustível. Criatividade para tirar dinheiro fácil de motoristas menos esclarecidos (a maioria) não encontra limites. Soma-se ao “pacotão” de limpeza de injetores e de corpo de borboleta, descontaminação geral do motor e por aí afora.
Lobo em Pele de Cordeiro
19/09/2007 - Renato Bellote Gomes
Olhe bem para esse pacato Fusca branco pérola. Ele pode até parecer inofensivo na foto, mas deixa muito carro novo comendo poeira. O segredo está sob o capô: um propulsor doado por seu primo alemão, o Porsche.

O interesse em escrever esta matéria surgiu através de uma conversa com a Claudia Floriano, da Confraria do Fusca. Pedi a ela um automóvel diferente, com a “cara” do simpático besouro, mas que fosse apimentado na parte mecânica. Foi aí que este modelo 1966 entrou na história.

Só para ilustrar, a adaptação de motores Porsche no Fusca não é tão incomum como se pensa. No portal de vídeos Youtube é possível ver alguns exemplares mundo afora. Nos Estados Unidos até o “nosso” Puma já recebeu um desses blocos.

Antes de falar do carro, vale a pena dar um passeio pelos anos 60 em São Paulo. Nessa época, a moçada badalava na agitada Rua Augusta, freqüentando os famosos cinemas Majestic e Picolino, além de um lanche no Frevinho.

Quem gostava de automobilismo, por sua vez, assistiu a uma época de ouro. As equipes Vemag e Willys protagonizavam muitas “batalhas” nas pistas. Nomes como Bird Clemente, Camillo Christófaro – o lobo do Canindé – e Luiz Pereira Bueno se tornaram conhecidos e suas atuações comentadas nas rodas de amigos.

Agora volto a contar a história. Marcamos para tirar as fotos em um Domingo. Apesar do tempo frio e chuvoso, o dia nos saudou com um belo sol. Ainda fiquei um pouco no trânsito por ocasião da Maratona Internacional de São Paulo. Mas valeu a pena, como o leitor verá a seguir.
O clássico pertence ao advogado Sérgio de Magalhães Filho e foi adquirido há dez anos. Mas sua paixão pelo Volkswagen vem de longe. “O primeiro carro foi um Fusca 1961”, conta. “Este, com teto solar, tive em 1966, com motor Porsche, igual ao que agora recriei”, comenta. E finaliza com um ar de nostalgia: “saudosismo da juventude”.

O colecionador me contou que o veículo foi restaurado durante dois anos. “O Luiz Antonio Paiga fez o serviço”, diz. “Ele me vendeu o carro pronto, com mecânica VW 1.200. O que fiz foi modificá-lo como nos idos de 1966, quando a Dacon colocava painel, motor, freios e rodas do Porsche 356”, relembra.

E o modelo é mais bonito ainda visto de perto. Os canos de escapamento – aliados ao ronco grave – denunciam que não se trata de um simples motor boxer. As rodas de 15 polegadas – calçadas com pneus radiais 185-60 – seguram o carro nas curvas mais fechadas.

A dirigibilidade é outro ponto forte do clássico. “Até hoje é um veículo gostoso de dirigir, rápido no trânsito e prazeroso”, diz Sérgio. “Seu motor tem 110 cv, dupla carburação Weber, o que é mais do que suficiente para a estrutura do carro, que é toda original, inclusive os bancos e estofamento”, revela.

Como todo proprietário zeloso, o advogado só abastece com gasolina Premium, além da boa e velha conservação caseira. Por dentro, o detalhe fica por conta do rádio Blaupunkt de época, verdadeira pérola dos anos 60. O teto solar – outra característica original – é acionado por uma pequena manivela.

Além de dar umas voltas de vez em quando, o Fusca traz boas histórias, algumas delas bem pitorescas. “Entre os outros carros da coleção, é o que mais desperta curiosidade e aplausos, principalmente dos frentistas dos postos e dos admiradores do Fusca”, revela. “Os amigos que freqüentavam a Dacon na época, amantes do Porsche, ficam entusiasmados e com alguma inveja”, comenta com bom humor.

Os faróis auxiliares na dianteira também ajudam a deixá-lo mais invocado. Só fomos até a praça da esquina para buscar uma boa sombra para as fotos, mas deu pra sentir que o clássico Volkswagen surpreende no desempenho.

Desse modo, fica mais fácil entender porque o velho ditado popular – e título desta matéria – cai como uma luva para o modelo. Todas as horas de cuidado e dedicação valem a pena quando o Fusca-Porsche sai para rodar num belo Domingo de sol. Mas lembre-se: se avistá-lo no retrovisor, é melhor sair da frente.
A Vez dos Verdes
17/09/2007 - Fernando Calmon
O Salão do Automóvel de Frankfurt, o maior do mundo e que se encerra neste domingo, demonstrou que a indústria está engajada no combate ao gás carbônico (CO2). O tema de bandeira dos verdes foi dominante, embora um relatório recente da revista Stern tenha revisado para baixo a influência das fontes dessas emissões não-tóxicas. Antes, se considerava que 20% do CO2 vinham das atividades de transporte; agora, 14%. Especificamente, os veículos terrestres respondem por apenas 10%. Em meio a essa histeria carbônica, não parece haver o mesmo empenho em relação a outros emissores dos gases de efeito estufa.

De qualquer modo, reduzir o CO2 significa diminuir diretamente o consumo de combustível. Isso é muito positivo, porém denota automóveis cada vez mais caros. A tendência para minicarros (subcompactos), adequados ao uso urbano, ficou clara. Dois carros conceito nessa categoria chamaram a atenção. Um deles, o Toyota IQ, de apenas 2,98 m de comprimento, pode levar três pessoas e uma criança.

Outro, o up! da Volkswagen, transporta quatro adultos e é um pouco maior (3,45 m). Terá motor traseiro, dois porta-malas, motores de 2 e 3 cilindros extremamente econômicos capazes de alcançar até 33 km/l de diesel. A empresa admitiu que haverá várias versões, inclusive de cinco passageiros, para países como o Brasil. Aliás, as linhas gerais do up! teve grande participação do designer Marco Pavone, oriundo da VW brasileira direto para a equipe do chefe de estilo Walter de’Silva, na Alemanha.

Em termos de desenho, a regulamentação da União Européia para proteção de pedestres já está modificando — e, infelizmente, tornando semelhante — a parte frontal dos novos modelos. É por uma boa causa: os estranhos capôs salientes em relação aos pára-lamas vieram para ficar. Inclusive nos automóveis que serão fabricados na região do Mercosul, como os novos Focus (início de 2009) e Peugeot 308 (2010).

Mostrado à Imprensa internacional, mas não ao público de Frankfurt, o Renault Sandero, a ser lançado aqui em dezembro, inaugurou uma nova situação de um modelo para mercados latinos que só depois será fabricado na Europa (no caso sob a marca Dacia). Trata-se do segundo produto brasileiro da arquitetura Logan, em que o fabricante francês avançou bastante em termos de estilo. Com menos 4 cm de distância entre eixos e acabamento melhorado, abre o leque da marca no disputado extrato superior dos compactos.

Fotos da picape Logan, a ser feita na Romênia em menos de um ano, foram distribuídas aos jornalistas. Mas o presidente da aliança Renault-Nissan, Carlos Ghosn, deu a entender que a picape não está nos planos para o Brasil. Como essa arquitetura pode gerar seis ou mais variações, restam a possibilidades de um utilitário esporte (SUV) ou mesmo de um crossover, meio termo entre SUV e perua, segundo o gerente do projeto, Gérard Detourbet.

O salão também deu vez a conceitos de diferentes matizes. Como o Fiat Panda Aria, um bicombustível a gasolina e hidrometano, e o SUV Ford Kuga, este certo em 2008 para enfrentar o novo VW Tiguan e outros. O mais avançado foi o Mercedes-Benz F700, maior do que um Classe S: um dos destaques, entre várias soluções inéditas, o Dieseotto elimina o sistema de ignição por centelha, levando um motor a gasolina ao consumo quase igual ao de um diesel, com mais suavidade e menos emissões tóxicas. Tecnologia aplicável, ainda, ao álcool. VW e GM igualmente apostam nessa solução em futuro próximo.

RODA VIVA

INVESTIMENTOS de US$ 500 milhões e 12 novos modelos até 2010 são os planos anunciados pela PSA Peugeot Citroën para Brasil e Argentina. Vincent Rambaud, diretor para o Mercosul, terá mais autonomia em relação à matriz. Inclusive para ampliar o centro de desenvolvimento, que já trabalha em projetos específicos para a região. Podem-se esperar sedã e picape derivados da arquitetura do Peugeot 206 e um monovolume a partir do C3, conforme rumores.

RAMBAUD afirma: “Não está no âmago do grupo ingressar na onda do carro de baixíssimo custo”. De fato, parece decisão estratégica em nível mundial, pelo menos no momento. Mas acenou que o motor flex de 2 litros, exibido numa versão do Peugeot 308 no Salão de Frankfurt, será produzido no Brasil, inclusive para exportação à Europa. Lançamento, a coluna antecipa, para final do primeiro trimestre de 2008.

INADIMPLÊNCIA nos financiamentos de veículos continua a cair. De janeiro a agosto foi de apenas 3,2%, contra 3,5% no mesmo período de 2006. Significa que nada indica dificuldades de honrar prestações futuras. Mesmo porque os juros devem continuar a cair (mais lentamente) e há possibilidade de repactuar financiamentos ou trocar de carro antes do final do prazo.

FUTUROS produtos da GM do Brasil exibirão apenas a “gravata” dourada símbolo da Chevrolet, como nos modelos importados Omega e Tracker. Aqui a gravata está aplicada dentro de um círculo, uma fusão com o logotipo da Opel, subsidiária alemã do grupo, que lá utiliza um raio estilizado no centro do círculo.
Foi bão tumém!
11/09/2007 - Celso Travassos
Acordei às 7h. O Pequeno já estava acordado, vendo desenho na televisão, pijama de flanela, cabelo atrapalhado. Ninguém mandou matricular o bichinho no turno da manhã!

Chovia. Muito. Chuva de um barulho só, caindo em pé, sem vento. Imaginei o dia: os primos junto com o pequeno, detonando os bibelôs da casa, a mulher irritada com aquilo, a filha adolescente com cara de tédio. A disputa pelo controle remoto da televisão, a grande dúvida: TV À cabo ou DVD?... O sorteio para ver quem vai à locadora - claro que seria eu... Ia ser um
domingo longo.

O Zedu ligou: Vou até aí, vamos ajuntar os meninos que dá menos trabalho...- realmente ia ser um longo domingo, pensei, com o barulho contínuo e forte da chuva caindo. Olhei da varanda o cachorro encolhido com o mesmo ar desolado que eu devia estar.

Contei para o pequeno que os meninos do Zé estavam vindo...A idéia veio dele: Ôba! Vamos andar de jipe na lama, pai?! - Os olhinhos brilhando em uma cara de quem procurava um cúmplice para uma travessura. Pensei na cabine do jipe, capota de lona é igual a guarda-chuva velho: finge que protege, mas no fundo nos molhamos do mesmo jeito.

O barulho da pesada chuva e a perspectiva do domingo desperdiçado me animaram. Topei. A mulher ainda dormia e iria continuar assim com o barulho da chuva no fundo. A filha também dormia pesado, descansando da "balada" do sábado.

Preparei rapidamente algumas coisas. O Zé chegou e eu já estava pronto, não dando tempo nem para os cumprimentos.
- Tá doido? - ele falou.
- Tô. - respondi - Acho que sempre fui.
Ele sorriu e entramos no jipe, rumo de Macacos, que na realidade se chama São Sebastião das Águas Claras. O trecho é pequeno e não oferece grandes perigos. Eu e o Zé na frente, as três crianças atrás. O jipe deslizava na lama e a meninada agarrada como podia lá atrás, com os olhinhos arregalados - dava para ver que a adrenalina deles estava a mil, apesar de estarmos devagar e seguindo com segurança. Para eles era uma grande aventura. Seguimos com o jipe dançando na lama e a água entrando como devia, na cabine.

Chegamos em Macacos devidamente enlameados, úmidos e felizes.

Sentamos em uma mesa de bar e fizemos o pedido tradicional - Filé com Fritas - prato padrão das crianças. A cidade estava vazia. Só uns poucos "treieiros" que arriscaram a entrar com suas motos no enrosco da chuva. A meninada feliz, tagarelava. Eu e o Zé tomamos uma cerveja com ar de dever cumprido e aquele sentimento de estar fazendo o bem. O celular? DESLIGADO!

Voltamos para casa pelo mesmo trajeto - a estrada que liga Nova Lima à Macacos. Chegamos em casa, a meninada meio molhada, foi para o banho quente e o pijama de flanela. Eu e o Zé ficamos gripados.

A mulher? - Balaio Trancado! Isso vai custar pelo menos dois domingos de almoço na casa da sogra...

Mas como se diz em Minas: "Foi bão tumém!"
A Grande Tacada
10/09/2007 - Fernando Calmon
O mercado brasileiro pode ainda estar um pouco distanciado da sofisticação ou mesma da oferta generosa de opções de modelos no mesmo segmento, como na Europa, Estados Unidos e Japão, mas parece que estamos nos aproximando. Entre os compactos a competição é bastante dura. A Fiat possui nada menos de quatro modelos hatch — Uno, dois Palios e o Punto — e a VW alcançará em breve o mesmo patamar — dois Gols, Fox e Polo. A GM tem três: Celta e dois Corsas. Isso sem contar derivações sedã, station, monovolume e utilitário esporte (só o EcoSport, por enquanto).

No degrau acima, entre os hatches médio-compactos, a oferta já é bastante ampla, inclusive pela competitividade de modelos importados. Nessa categoria os sedãs derivados dos hatchs viraram o jogo pela preferência do consumidor. Entre 2001 e 2007, ficou tudo invertido. Hoje os sedãs, em conjunto, vendem o dobro dos hatches — ou até mais, dependendo de como se classificam certos sedãs médio-compactos de distância entre eixos esticada.

Fenômeno novo é a convivência de duas gerações de hatches de mesma origem e arquitetura, como já acontece entre os compactos. Enquadram-se dessa forma o Astra e o Vectra GT, ambos hatches. Este último chega agora ao mercado com posicionamento de preço correto — R$ 60.000,00 (GT) e R$ 69.000,00 (GT-X) — e introduzido na grade de produtos da marca sem conflitos de monta.

Muitos podem estranhar a sigla GT — e mesmo GT-X — que têm um significado nobre nos principais mercados do mundo, menos no Brasil. Com raras exceções, GT aqui significa mais Grande Tacada do que Grã-Turismo. O verdadeiro GT faz parte de uma categoria refinada, de desempenho bem superior, em geral com duas portas, suspensões mais firmes, rodas largas, som do escapamento sinfônico. Mas, se aqui se aceita essa, digamos, licença poética, os marqueteiros de plantão estão certos: “relaxe e compre”. Aliás, aspas da propaganda censurada pelo Palácio do Planalto, para não incomodar a ministra, que deu volta ao Brasil pela Internet.

Humor à parte, o Chevrolet Vectra GT é uma boa oportunidade de mercado que a GM vislumbrou e desenvolveu em apenas 18 meses. Ganhou tempo precioso trocando painéis traseiros com a Opel: daqui seguem peças do Vectra sedã e de lá vem o conjunto do Astra hatch atualizado, em 2003, na Europa. O estilo manteve-se equilibrado, apesar da frente do modelo brasileiro diferente do europeu. Painel e quadro de instrumentos vieram do irmão mais velho, mas o espaço para pernas atrás é menor pois não herdou o entreeixos maior. Perdeu, também, 7% do volume do porta-malas em relação ao Astra (líder entre os hatches) em função de desenho.

Airbags frontais são de série nas duas versões. ABS opcional no GT e de série no GT-X, no caso com freios a disco também atrás. Garantia, claro, de três anos. Ponto alto do carro é o comportamento dinâmico graças a um dos melhores acertos de suspensão da indústria nacional, em especial no GT-X com rodas de maior diâmetro (17 pol). Na realidade, está pronto para um motor de 150 cv ou mais, embora a fábrica tenha optado pelo de 2 litros de 121/128 cv e quase 20 kgf.m de torque (usando álcool). Como sempre, por razões de preço.

RODA VIVA

SEGUNDA parada de linha da fábrica do Gol, em Taubaté (SP), para ajustes, prejudicou a produção em agosto. Indicação da proximidade de lançamento do novo Gol hatch, que também terá sedã e picape novos, mas não station. Quem viu, gostou do novo quadro de instrumentos. Nada a ver com a acanhada solução atual onipresente do Gol à Kombi, passando por Fox e Spacefox.

NOVO recorde de venda mensal (235.000 unidades, agosto) e acumulada no ano (1.535.000 veículos) colocou o nosso mercado quase no mesmo patamar de Itália, França e Inglaterra, em base anualizada. Falta de peças continua a perturbar. Ameaças de greve no Estado de São Paulo, contornadas agora mediante acordo — aumento real de salários — com os sindicatos, já não preocupam.

LEASING tornou-se principal meio de aquisição de veículos no mês passado. Respondeu por 35% das vendas. Financiamentos tradicionais e consórcios (estes em queda livre), 30%; à vista, 32%; outras canais, 3%. Trata-se de uma mudança substancial, em poucos anos, na preferência dos clientes da indústria pela prestação um pouco menor.

NAVEGADOR portátil Visteon equipa o Vectra GT, primeiro modelo nacional a trazer esse útil equipamento de série. Em avaliação anterior ao lançamento, destaca-se por cerca de quatro horas de autonomia da bateria, suporte de ventosa robusto, sensor para controle de iluminação de tela e versão mais recente do ótimo software de navegação Destinator (6.0). Como outros navegadores, atualização dos mapas precisa melhorar.

CASO aprovado no Congresso, haverá punição maior contra fraudes nos postos de combustível. Atividade será suspensa temporariamente já na primeira adulteração flagrada. Hoje, só ocorre na quarta vez. Em reincidência, suspensão será maior. Na terceira fraude comprovada, o posto fecha de forma definitiva. Fora as multas (R$ 20 mil a R$ 5 milhões). Incrível que só agora esse rigor esteja sendo estudado.
Conforto Versus Segurança
03/09/2007 - Fernando Calmon
Essa fase de reaceleração do mercado pode trazer algumas mudanças em relação ao comportamento do motorista brasileiro frente aos itens de segurança. Carro mais seguro significa carro mais caro. É assim em qualquer parte do mundo. Quando há capacidade aquisitiva suficiente, maravilha. Sem abrir mão dos itens de conforto, torna-se possível avançar na oferta de equipamentos de segurança passiva (diminui os efeitos do acidente) e ativa (evita o acidente).

Problema maior ocorre quando o dinheiro é curto, em países ainda não desenvolvidos. Torna-se necessário um grande nível de conscientização para que, de modo voluntário, abra-se mão de algum conforto em favor da segurança. A escolha deveria ser óbvia, mas infelizmente não é. Em pesquisas de opinião, as pessoas até podem valorizar a segurança. Na hora de comprar, as coisas mudam.

Na enquete do jornal Estado de Minas sobre a escolha entre ar-condicionado e ABS (sistema antibloqueio de freios), 56% dos motoristas entrevistados nas ruas optaram pelo equipamento de segurança. No portal Vrum, a mesma pesquisa, sob proteção do anonimato do clique de um mouse, a preferência resvalou para apenas 35%. A limitação financeira acabou pesando.

Esse dilema pode diminuir com a nacionalização do ABS que a Bosch acaba de iniciar. Chega em boa hora. A redução do custo (estimada em 30%, para começar) coincide com a fase atual de prestações e juros menores, grau de confiança e alguma recuperação do poder de compra, além do alívio da demanda reprimida por quase uma década. Pelo menos seis fabricantes (Fiat, GM, Mercedes-Benz, PSA Peugeot Citroën, Toyota e Volkswagen) acenam com encomendas maiores. Porém, há necessidade de práticas comerciais mais favoráveis sem casar o ABS, compulsoriamente, a outros itens.

O poder público poderia dar um grande impulso, se diminuísse os impostos sobre equipamentos de segurança. A taxa de aplicação do ABS no Brasil é de apenas 13% contra 75% da média mundial. O potencial de crescimento e a diminuição dos acidentes — ou a sua gravidade — significariam retorno certo. Também as companhias poderiam cobrar menos pelo seguro. Esse fenômeno ocorreu no exterior quando as seguradoras viram cair os custos com colisões na medida em que mais veículos eram equipados com o sistema.

Cabe, ainda, às fábricas atuar na divulgação das qualidades do ABS e, em especial, na operação em freadas de emergência. Precisam enfatizar características de pequena pulsação e ruído (inferiores ao passado), sempre pressão máxima sobre o pedal e possibilidade de desvio do obstáculo (impossível se as rodas travam). Tudo isso deveria ser explicado pelos vendedores nas lojas, o que nem sempre ocorre.

Na realidade, até a redação dos manuais de instrução de uso precisa melhorar. Consultando nove deles, aleatoriamente, havia explicações insuficientes em mais da metade. O da Ford é o melhor, seguido pelo da Toyota. Em ambos se chama a atenção para situações particulares como vias de pavimentação ruim (buracos, ondulações) ou de terra, quando o ABS tem seu funcionamento um pouco prejudicado, apesar de todos os avanços recentes no processamento eletrônico.

RODA VIVA

MENOS de seis meses é o prazo para que a versão hatch do Logan seja lançada no mercado brasileiro. Renault, no entanto, já avisou: o modelo terá outro nome e visual bem diferente. Claro que não será apenas mais curto e com porta-malas menor, em relação ao sedã, mas também nada indica que se trata de um carro cujo desenho traga fortes emoções. Projeto original impõe limitações.

CERCA de 30% da produção do Siena reestilizado, que chega em outubro juntamente com a perua Palio Weekend, se manterá no Brasil. Da Argentina, o sedã compacto será exportado não só para aqui (completando a produção de Betim, MG), como para países da América Latina. Motor Fire de 1.400 cm³ com mais cinco cavalos, que estreou no Punto, deve equipar os dois modelos.

ORDEM é aproveitar o cenário. Já se pode esticar o número de prestações, com o mesmo valor de dois ou três anos atrás, e conseguir comprar um veículo maior ou mais equipado. Portanto, GM oferecerá a opção de câmbio manual automatizado para o Meriva antes do fim do ano. Há dois anos o carro segue assim para o México e faz dois meses, para a Argentina. Equipamento é Luk, importado da Alemanha.

ENTRE as dicas da Cartilha do Bom Motorista, divulgadas pela BB Seguros/Brasilveículos, há uma do Piquet Centro de Pilotagem. “Não discuta com outros motoristas, mesmo que esteja certo. Siga adiante e se distancie de quem procura confusão.” O tempo traz mesmo sabedoria. Nelson Piquet e Eliseo Salazar, nos seus tempos de pilotos, fizeram exatamente o contrário no GP da Alemanha de 1988...

INSTITUTO Brasileiro do Petróleo (IBP) parece comemorar a greve do Ibama recém-encerrada. Isso atrasou a regulamentação exigindo que os kits a gás cortem em 50% as emissões de óxidos de nitrogênio. Aumento de custos será de pelo menos 15%. IBP convida os interessados para “aproveitar” e escapar do aumento, mesmo poluindo mais o meio ambiente. Posição, no mínimo, politicamente incorreta.
 
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